Ardentia

 
Última edição - 1975

Ardentia

Edição 01

Presença e graça de Maluh, por Aurélio Buarque de Holanda: É minha vizinha há bem mais de 20 anos. Acontece passarem-se dias, semanas, alguns meses até sem que nos vejamos; e por vezes a vejo à distância, alcançou lhe apenas uma ponta, um fragmento de sorriso. E somos amigos perfeitos. Ela tem, como poucos, a arte e ciência da amizade. Dessas amizades que, para existirem, e com intensidade, dispensam a presença física. Este Ardentia, de tão belo título, irmão das Ardentias com que se estreou, ainda beirando os vinte anos, Vicente de Carvalho, é o terceiro volume das crônicas de Maluh de Ouro Preto, carioca (de confissão sua) um metro e cinquenta e quatro centímetros e meio, montados em sapatos sempre de bom gosto, como tudo nessa pessoa de uma graça inteligentemente viva, de serena presença. Ardentia é o nome duma das peças do livro, na qual se revela (como nalgumas outras, mas em grau mais intenso que noutra qualquer) o gosto da prosa metrificada e às vezes rimada, gosto donde provêm, sobretudo, redondilhas maiores, o verso popular por excelência, umas de ingênua e por vezes estranha beleza. Que as ardentias tocam um fundo a Maluh de Ouro Preto bem se vê na sua declaração de que "o lugar mais bonito do mundo”, tem "uma estranha fosforescência no mar”. Este lindo lugar é pintado, sem dúvida, sob a influência da “Invitation au Voyage” (sobretudo a "Invitation" em prosa), de Baudelaire. Maluh ama as paisagens, os poentes, os efeitos da luz, um mar, os Matos. E as letras, e as artes, e as crianças, e os animais. Das artes, seu gosto se endereça particularmente a pintura; e joga muito bem com o vocabulário pictural. De resto, apresenta domínio vocabular, numa sobriedade que por via de regra se atém aos limites das palavras da tribo ponto das palavras e construções tribais. Seu estilo direto e animado, com jogo feliz de períodos breves e longos, é harmonioso, dê para nós coisas sutis, como aquela “a igreja silenciosa e fria, só lembro das ações passadas", e assinala se pelo gosto da repetição ponto mescla saborosa de tradição da língua com a linguagem viva atual do dia a dia. Um gosto romântico da repetição ponto um jeito - muito da sua sensibilidade retintamente romântica - de enlear-se nas interações, sentimentalmente agarrar-se a elas, para não se desprender do passado a cuja evocação elas estão servindo. Repetir, repetir, não ansiosa tentativa de revocar e dos tempos felizes. Como quem se despede e redes pede no seu amor, e fala e fala e fala, e não se afasta. Romantismo, fantasia, sim. Porém, ao lado dessa fantasia solta, sensível poder e gosto de observação, com as palavras incidindo certeiras sobre a realidade observada. Vejam-me lá se “O Retrato de Mim” - bom conto a moda clássica - não confirma tudo isto nem lhe falta, à Maluh, agudeza crítica: é percorrer “O Renascentista”. Esta moça femininíssima oferece exemplo de harmonia perfeita entre o escritor e a obra. A Maluh de Ouro Preto escrita confunde-se com a Maluh de Ouro Preto conversada. Nesta e naquela, o mesmo encanto de presença.


Nas categorias: MALUH DE OURO PRETO