Siri na Noite sem Lua

 
Última edição - 1959

Siri na Noite sem Lua

Edição 01

Antônio Olinto: Existe o que se poderia chamar de "a verdade da crônica”. Talvez por causa de sua ligação com o “tempo” - com “Khronos” grego - e da sua não necessária transitoriedade, tinha esse gênero de se adaptar com precisão às condições do jornalismo de nossa época. Daí, o seu caráter de “registro”, de “testemunho” e, naturalmente, mesmo no caso das crônicas da idade média, a estrutura opinativa que nela habita, por leve que seja a sua feitura. Todo gênero comporta diversos tipos de classificações pode-se dizer que a crônica é "subjetiva”, "objetiva” ou ao mesmo tempo “subjetiva e objetiva”. A primeira virgula de sucesso quando o ator seja também um poeta em prosa, perde, no comum das vezes, o seu interesse para o grande número de leitores, desejosos de saber o que está havendo por aí, neste aspas tempo aspas, e somente até certo ponto os capazes de aceitar a pessoa do cronista, sua subjetividade, sob a capa das notícias. A segunda, mais difícil, tinha vontade de deixar de que o assunto se imponha de tal maneira que não seja necessária a imposição de uma opinião. Mas todo bom cronista percebe a terceira categoria ponto. É aí que se tu Maluh de Ouro Preto. A autora de “Siri na noite sem lua” assusta me sempre, de início, a posição clássica do cronista de qualquer tempo. Interessa-lhe um acontecimento. Um tema. Será o chapéu de verão. Uma ida à praia. Um doce de goiaba. A visita de um gavião. No processo de sua tomada de contato com o assunto, usa Maluh de Ouro Preto a técnica da minúcia. Enumera. Divide. Mostra pormenores e, através deles chega a sua participação em cada trecho daquilo que é a matéria do seu escrito ponto há sempre no meio das suas crônicas uma súbita mudança do particular para o geral e, em tão, os detalhes fecham-se sobre si mesmos e apresentam aspecto panorâmico de um determinado ser todas atitudes humanas. É o toque do homem que dá grandeza as coisas. Quando Sófocles dizia, no "Édipo rei”: "de que vale a torre de que vale a nave, sem homens dentro que as habitem? ", era este sentimento de vazio, possível sempre que o humano se afasta das coisas, que desejava referir-se ponto uma das mensagens iniciais do cronista é sua subordinação a realidade. Esta é o seu material, num sentido mais próximo do que o que nos leva a dizer que a realidade é também a base do poema, do romance, do conto, da peça de teatro. A intimidade do cronista com tudo o que acontece é maior, porque ele deve obediência ao cotidiano, ao temporal, ao transitório o que a coloca junto da realidade não é, muitas vezes um acontecimento marcado, de mês definido, de contornos reconhecíveis, mais um real genérico, um estado de espírito cujo âmbito abarcam um período maior. Por muita inovação que o ator possa fazer num gênero a uma posição tradicional de quem tem que tomar para se manter fiel a uma linhagem. Maluh de Ouro Preto tem esse aspecto e conhece a técnica da sua especialidade, que dela extrai o máximo de efeitos e que o que é importante sabe dar os traços de largueza em que muita coisa não é dita, mas sugerida. Consegue, assim, infundir em suas crônicas o centro da complete dão, isto é, aquele que faz com que cada crônica seja o que é, sem deixar de dar a entender que, além das palavras, há sempre alguma coisa mais.


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